Novos negócios em meio à pandemia

Diante da crise econômica, empreendedores mantiveram plano do negócio próprio, e agora trabalham para conquistar consumidores e driblar dificuldades como restrição de horário e distanciamento social

O empreendedorismo é o sonho de milhares de brasileiros, mesmo em tempos difíceis como o atual. Aliás, entre mudanças a virem, a pandemia do coronavírus trará boas oportunidades de negócio e será o caminho trilhado por muitos para garantir renda no futuro. Mas há também quem já deu o primeiro passo. A Revista ACIM foi atrás da história de empresas recém-inauguradas em Maringá para mostrar os desafios de quem decidiu empreender em meio a esta crise sem precedentes.

Uma delas é a Key West Coffee, que abriu as portas em 17 de junho. A cafeteria é o primeiro empreendimento do casal Vanessa Zicka e Mauro Zicka, que trocou Curitiba por Maringá para colocar em prática o sonho do negócio próprio. “Tínhamos vindo à cidade a trabalho e a escolhemos para empreender e morar por causa do clima e da estrutura. Também por ser menor e mais tranquila, já que temos um filho pequeno”, conta Vanessa, que na capital trabalhava como publicitária.

Depois de um período de dedicação exclusiva à maternidade, ela decidiu que era hora de voltar à ativa. Em outubro passado, o casal se mudou para Maringá e começou a elaborar o plano de negócio. Em janeiro, os dois fecharam a locação do ponto comercial na avenida João Paulino Vieira, localização estratégica para a cafeteria que aposta no conceito to go.

É uma região empresarial, com escritórios e universidades, ou seja, o público que queremos atingir com a proposta de praticidade e funcionalidade. O consumidor passar e pegar o café é um hábito comum entre os norte-americanos e europeus, e queremos incentivar entre os maringaenses – Vanessa.

A proposta ‘casou’ com o atual momento de restrições. Embora a cafeteria também ofereça a opção de consumo no local, o ambiente tem sido pouco explorado neste início por causa das regras de distanciamento social. Mas no futuro, a ideia é que o espaço sirva para momentos de lazer, leitura e bate-papo.

Até lá, o foco é conquistar o paladar dos maringaenses com grãos selecionados. “Trabalhamos com cafés especiais, colhidos manualmente em uma propriedade na região”, destaca a empresária. Além de bebidas quentes e frias, o cardápio traz doces e salgados. Tem opções de inspiração norte-americana, como os cookies, e brasileira, como a coxinha – todas assadas, já que a ideia é seguir a linha saudável.

Vanessa Zicka e Mauro Zicka se mudaram de Curitiba e abriram a Key West Coffee, uma cafeteria ao estilo to go, em que o consumidor passa e leva o café

Mesmo com a limitação de horário e a circulação de pessoas na região abaixo da prospectada, já que as aulas estão suspensas e muitos profissionais estão trabalhando em home office, Vanessa avalia positivamente o movimento na cafeteria nestas primeiras semanas. Ela revela que cogitou adiar a inauguração da Key West Coffee, porém sem conseguir negociar com os fornecedores, a abertura se tornou a única opção viável. “Estávamos no meio da reforma quando começaram as restrições. As obras atrasaram e o cenário ficou difícil. Tentei negociar com os fornecedores, mas não tive êxito. Também tinha acabado de fazer as contratações e treinar a equipe. Pagamos o primeiro mês e só depois conseguimos fazer a suspensão dos contratos. Abrir a empresa era a única alternativa porque os custos dela fechada eram altos”, diz a empresária.

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PEDACINHO DO LÍBANO

Quando visitou Maringá em 2019, o libanês Raed Rafeh vislumbrou uma vida próspera ao lado da família na cidade. O plano de se mudar e abrir um restaurante na cidade o acompanhou no retorno à sua terra natal e o trouxe de volta no início de março. Nem mesmo a pandemia da Covid-19 o fez desistir. Desta vez, ele desembarcou acompanhado da esposa e do filho, e decidido a ficar.

Depois de cumprir o período de isolamento social, obrigatório para os recém-chegados ao país, Rafeh iniciou a procura por um ponto comercial para o restaurante. Nessa tarefa, contou com a ajuda de familiares que moram na cidade. O imóvel escolhido, que fica na avenida XV de Novembro, passou por uma reforma e ganhou traços da arquitetura libanesa. Minimalista, a decoração é um convite para uma viagem ao Líbano por meio de quadros e objetos. A cultura árabe também está presente no som ambiente e no forte sotaque do empresário.

Mas o diferencial do Layali, como destaca Rafeh e o letreiro na fachada, é a “autêntica comida libanesa”: esfiha, kafta, tabuli, fattouch, hommus, babaghanoush, coalhada, arroz com lentilhas e variados tipos de quibe compõem o cardápio. “É um restaurante clássico e aconchegante. Um pedacinho do Líbano em Maringá”, resume orgulhoso Rafeh, ao definir o restaurante inaugurado no início de julho, dois dias antes do decreto municipal que impôs medidas restritivas mais rigorosas a bares e restaurantes como prevenção à propagação do novo coronavírus. “Abrimos e duas noites depois tivemos que fechar por causa do decreto”, conta.

Embora não estivesse nos planos, a proibição de não funcionar à noite, conforme decreto que perdurou por duas semanas, não frustrou o libanês. Ele se adequou às medidas e em vez de jantar, passou a servir almoço. Também adotou o sistema de delivery e aplicativos de entrega. E agora, com o decreto vigente desde 22 de julho, voltou a servir jantar e manteve o almoço. A divulgação é feita pelas redes sociais. “É uma situação difícil, mas vai passar. Até lá vamos trabalhando como é possível. Por sermos um restaurante novo, muitas pessoas querem nos conhecer”, diz o empresário, acrescentando estar satisfeito com o movimento no primeiro mês do Layali, que tem capacidade para 50 pessoas, mas foi reduzida para 25 por causa das restrições.

Questionado se a pandemia o fez hesitar sobre a mudança de vida, Rafed é categórico: “o mundo todo está assim. Investi tudo o que tinha neste restaurante. Não posso fechar. Estou feliz aqui e tenho certeza que as coisas vão melhorar”, finaliza.

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PONTO CERTO NA HORA… CERTA

Há dez anos a empresária Ana Carolina Dias atua no mercado de cosméticos. Ela começou com o aluguel de aparelhos estéticos e há dois anos adquiriu uma representação de  dermocosméticos. Os dois negócios ‘nasceram’ e funcionaram por bom tempo no endereço residencial, seja por praticidade ou pela falta do ponto comercial ‘ideal’. Em dezembro passado, Ana Carolina encontrou o espaço que tanto procurava para o negócio. O contrato de aluguel foi fechado em janeiro e dias depois começou a reforma do imóvel da rua Santos Dumont.

Tudo caminhava dentro do planejado até que as obras tiveram que ser interrompidas em março por causa da pandemia da Covid-19. Com o cronograma atrasado e em meio as incertezas do mercado, Ana Carolina admite que ela e a sócia cogitaram adiar os planos. “Pensamos várias vezes em adiar a abertura da loja, mas depois refletimos: já que chegamos até aqui, vamos em frente”, conta.

A loja física da Maison d’esthétique abriu ao público em 7 de julho com opções de dermocosméticos de sete marcas, inclusive lançamentos. Embora o movimento esteja longe do esperado, também por conta do horário reduzido de atendimento do comércio, Ana Carolina e a sócia Elisabete Camargo mantêm o otimismo.

Para recuperar os 60% de queda estimada no faturamento, as duas apostam em divulgação em redes sociais e nas negociações online por WhatsApp ou site. Elas também contrataram influenciadoras digitais para divulgar a loja e o mix de produtos. “Quando começamos com a representação, tínhamos uma agenda intensa de visitas a clínicas estéticas e de cirurgia plástica, nosso público-alvo. Hoje, devido às restrições de funcionamento impostas às clínicas, não conseguimos recorrer a essa estratégia”, lamenta.

Os treinamentos disponibilizados à clientela, antes realizados em grupos, também tiveram que ser remodelados. Agora o atendimento é VIP e feito até aos fins de semana para atender a demanda de clientes de Maringá e região. “O mercado de estética, assim como os outros, foi impactado pela pandemia. Porém acreditamos que vai se recuperar”.

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CENÁRIO DE 2020, PLANO DE 2019

Há um ano quando a rede Bom Dia decidiu ampliar a atuação em Maringá e abrir a 41ª unidade, o novo coronavírus ainda não era uma ameaça. O avanço da Covid-19 mudou completamente o cenário, mas não os planos de expansão da rede. Com atraso de 90 dias no cronograma, devido à paralisação das obras, a loja foi inaugurada no mês passado. “Porém, como já estava tudo preparado antes da pandemia, decidimos dar continuidade ao projeto”, destaca o gestor executivo da rede, Celso Shimano, acrescentando que a expansão é um processo contínuo. “Aproveitamos quando aparece uma oportunidade”.

A nova loja está localizada na avenida Paraná, e lá os consumidores encontram setores diversificados de perecíveis, adega, além de frutas e verduras frescas e de qualidade. O funcionamento da loja atende às medidas restritivas do decreto municipal, que permite que supermercados funcionem de segunda-feira a sábado das 8 horas às 20 horas, e aos domingos das 8 horas às 13 horas.

REDE BOM DIA INAUGUROU LOJA QUE GERA 50 EMPREGOS DIRETOS

Sobre o futuro do cenário econômico, o gestor executivo reconhece ser incerto. “Se Deus quiser vai melhorar logo”, opina. Vale destacar a contribuição da rede para amenizar o saldo negativo do mercado de trabalho na cidade em tempos de pandemia. A nova loja gera 50 empregos diretos e aproximadamente 130 indiretos.

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ECONOMIA A PASSOS LENTOS

Enquanto cientistas do mundo inteiro travam uma corrida pela descoberta da vacina contra o novo coronavírus, economistas se debruçam sobre os indicadores econômicos para entender quando e como se dará a recuperação da economia mundial. “O cenário é de incerteza por causa da pandemia. E incerteza afeta negativamente os agentes e as decisões econômicas. Dadas as limitações de funcionamento de comércio e serviços, a queda da renda e o desemprego, os consumidores estão gastando só o essencial. Isso reduz, como já reduziu drasticamente, a demanda. Por outro lado, os empresários e investidores não têm segurança para tomar decisões. Este conjunto de incertezas é a pior coisa que pode acontecer numa economia”, analisa o economista Antônio Gomes de Assumpção.

Na opinião dele, a forte recessão econômica deve se estender até o próximo ano, apontando para uma recuperação lenta e gradual da economia. “Talvez esta seja a maior queda da produção que a economia brasileira registrou na sua história. Uma recessão forte nunca tem uma recuperação tão rápida”.

Entre os entraves para a retomada econômica, Assumpção cita o descompasso entre as ações dos governos federal, estaduais e municipais. Segundo ele, a falta de articulação, especialmente na área da saúde, para dar respostas mais rápidas à população eleva a insegurança. Por isso, o economista condiciona uma retomada mais acelerada da economia à descoberta da vacina contra a Covid-19. “Se tivermos uma vacina para proteger a população, aí passaremos a ter uma expectativa positiva e teremos a recuperação. Espera-se esta recuperação para o próximo ano”.

Quando houver a recuperação econômica, as empresas estarão capacitadas para voltar a produzir e prestar serviço com os empregos que foram preservados – Antônio Gomes de Assumpção

Até lá, ele orienta os empresários a administrar e, sempre que possível, reduzir os custos fixos, como aluguel, contabilidade e contratos com prestadores de serviços com os empregos que foram preservados. “O corte de custos fixos pode representar a sobrevivência da empresa”. Paralelamente aos ajustes internos, é preciso buscar estratégias de comercialização, como investimentos no online.

Outra orientação é para que recursos obtidos por meio de financiamentos e linhas de créditos sejam utilizados para capital de giro tendo como destino o pagamento de salários dos colaboradores e contas imediatas. E isso se for a custo baixo.

O Brasil registrou o nível mais baixo de ocupação no mercado de trabalho da série histórica no trimestre encerrado em maio, quando a pandemia de coronavírus deixou 12,7 milhões de desempregados e fez a taxa de desemprego disparar. A taxa de desemprego saltou a 12,9%, de acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em Maringá são mais de 4,5 mil postos de trabalho fechados entre janeiro e junho, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

Os números poderiam ser piores, de acordo com o economista, não fossem as medidas do governo federal de flexibilização da legislação trabalhista, em especial a possibilidade de suspensão de contratos e os acordos para redução de carga horária e salários. Inicialmente a medida foi adotada por 90 dias e recentemente prorrogada por mais 30 dias, chegando ao total de 120 dias.

“A redução de jornada e de salário ajudou muito as empresas, principalmente as pequenas e médias, a preservar empregos. São medidas positivas que devem ser elogiadas e estão minimizando os impactos no desemprego. Quando houver a recuperação econômica, essas empresas estarão capacitadas para voltar a produzir e prestar serviço com os empregos que foram preservados”.

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