“Não é só alimento, é comida com memórias afetivas”

O engajamento com a bandeira da sustentabilidade acompanha Gian Luca Garcia Simoncelli desde a infância. Vem de criança, também, a preferência por uma alimentação saudável. “Minha mãe sempre fala que eu preferia os alimentos orgânicos, gostava de legumes”, conta.
Não à toa, ele se identifica tanto com os valores da Nuu Alimentos, empresa na qual trabalha há cinco anos, hoje como gerente comercial. “Quando entrei, a empresa era de pão de queijo. Hoje falamos de alimentos e sonhamos altíssimo, com expansões e internacionalização da marca”, revela.
Fundada e comandada pela empresária mineira Rafaela Gontijo, a foodtech Nuu é adepta do modelo de alimentação regenerativa, cujo conceito está relacionado à adoção de práticas que visam restaurar e revitalizar ecossistemas agrícolas, auxiliando no combate às mudanças climáticas.
Entre os benefícios deste modelo de negócio, Simoncelli destaca a diferenciação no mercado, fidelização de consumidores e redução de custos a longo prazo. “Não é só alimento, é uma comida que cria e traz memórias”.
Recentemente, a startup de alimentos à base de mandioca recebeu aporte de R$ 20 milhões liderado pelo fundo americano EcoEnterprises, referência em investimento de impacto. Com isso, a expectativa é dobrar o faturamento neste ano.
Em agosto, o gerente comercial esteve em Maringá e em palestra ministrada no Impacta Maringá, evento organizado pelo Copejem, falou sobre a trajetória da empresa, que também se destaca pela presença feminina no quadro de colaboradores: a diretoria é formada 100% por mulheres e no geral o público feminino ocupa 70% dos cargos.

Qual a definição de foodtech e como a Nuu Alimentos se enquadra neste conceito?

A Nuu se denomina uma foodtech porque alinha a experiência ancestral com a tecnologia e as modernidades do mundo atual. A gente faz comida de verdade, mas usamos tecnologia para aprimorar e melhorar esse processo, principalmente na forma de levar para o consumidor. Usamos o ultracongelamento, que é um método recente para garantir características físicas e químicas do produto. A Nuu também olha para dados e oportunidades no Brasil e no mundo para identificar como melhorar a nossa cadeia, tanto dos fornecedores quanto de parceiros e clientes.

 

Como foi a trajetória da empresa nestes dez anos?

Os dois primeiros anos foram da Rafaela batendo massa com a batedeira da sogra na casa dela. Era artesanal. De oito anos para cá a marca começou a se profissionalizar, trabalhar no varejo com força. Houve um tempo de maturação até a Rafaela criar coragem para desenvolver o projeto de expansão e chegar ao patamar atual, com a empresa faturando em torno de R$ 10 milhões a R$ 12 milhões por ano e com projeção de crescimento agressivo para este ano. Com a captação recente, a expectativa é fechar 2024 perto de R$ 20 milhões.

 

A Nuu surgiu com uma receita de família do interior de Minas Gerais. Como é resgatar algo antigo e simples e trazer para um mundo tecnológico? 

A modernidade trouxe inúmeras facilidades, em especial no setor de alimentos. Tem comidas que ficam prontas em dois minutos, algo que para a correria do dia a dia se enquadra bem. Mas com o tempo, a gente percebeu que esses benefícios da praticidade não estavam trazendo benefícios à saúde. Então buscamos alinhar a saúde e a praticidade por meio do resgate da comida ancestral. Até porque, sempre que podem, as pessoas optam por uma comida familiar, uma comida que traz memórias, que não é só um alimento.

 

E quem é o público desta comida? 

Estamos falando principalmente de pessoas engajadas com pilares sustentáveis e sociais. São pessoas preocupadas com o que aquele produto promove na sociedade, e não apenas com o efeito imediato de se alimentar. A gente foca nas mulheres, que majoritariamente têm o poder de decisão de compras nos lares brasileiros. O produto da Nuu também é voltado para as mamães. 

 

Em março, a empresa anunciou captação de R$ 1,2 milhão em um complemento de uma série iniciada em 2023, totalizando R$ 21,2 milhões. Em quais ações este aporte está sendo investido?

Como muitas startups, a Nuu vive dentro de um ecossistema ainda pequeno e as pessoas precisam entender e conhecer mais sobre esse ecossistema. Por isto este valor será direcionado para apresentarmos os nossos pilares para mais pessoas, em especial aquelas interessadas em conhecer a alimentação ancestral. As redes sociais são importantes neste processo e todo o conteúdo é feito pela nossa agência interna de marketing. Os eventos também ajudam porque não é só um produto, mas uma experiência de consumo. Não estamos em todos os estados brasileiros ainda. Começamos o projeto de expansão para Norte e Nordeste recentemente, mas nas regiões Sul e Sudeste estamos em todos os estados. Atualmente são mais de mil pontos de venda pelo Brasil.

 

Como é a linha de produção e há planos de ampliar o portfólio? 

Há quatro anos montamos fábrica própria com o intuito de melhorar a cadeia e reduzir em 30% a nossa emissão de carbono. O local acabou se tornando um laboratório para desenvolvermos receitas e produtos, aproveitando o ecossistema de Patos de Minas/MG, que é a região onde fica a fábrica. Hoje 80% dos nossos insumos vêm de pequenos produtores, afinal estamos na segunda maior bacia leiteira do Brasil. O nosso trabalho é voltado ao desenvolvimento de receitas e memórias afetivas que possam ser levadas para o varejo Brasil afora. Operamos no modelo food service porque nossos produtos têm ingredientes que garantem características únicas, tanto de sabor como sensoriais e de durabilidade. Há ainda uma preocupação em combater o desperdício. 

 

Há planos para internacionalizar a marca?

Olhamos para os mercados norte-americano e europeu e tem aparecido solicitações de parcerias, mas como gostamos de trabalhar a economia local, não é tão simples. A internacionalização ainda é algo para o futuro. 

 

A Nuu Alimentos foi uma das 50 empresas mundiais premiadas pela ONU a liderar o movimento de alimentação regenerativa. O que é este conceito?

O conceito de alimentação regenerativa está atrelado ao de sustentabilidade. O modelo de negócio tem que ser sustentável, e quando a gente olha para o modelo do setor de alimentação, em especial, ele não se sustenta a longo prazo. Há dados que apontam que daqui a cerca de 60 colheitas o solo não será mais produtivo. Ou seja, estamos falando do fim da vida na Terra num prazo curto. Então não podemos mais sustentar esse modelo, é preciso regenerar. A Nuu faz isso ativamente no cerrado mineiro e na Amazônia. Participamos do projeto com outras empresas e incentivos do governo para desenvolver e resgatar o cultivo da mandioca amazônica. No cerrado, trabalhamos o reflorestamento nativo, usando áreas que viviam de monoculturas para fazer estudos de enriquecimento do solo. É realmente um trabalho de regeneração do ambiente. O nosso ecossistema no cerrado mineiro conta hoje com 98 famílias, que são os nossos fornecedores e parceiros. Na fábrica, usamos energia fotovoltaica. Temos 20 mil litros de armazenamento de água para lavagem de equipamentos. 

 

Ser sustentável é um negócio lucrativo?

Sem dúvida. Basta olhar para a economia global, como ela se concentra na mão de grandes empresas. O modelo sustentável melhora a distribuição de renda e dá longevidade às empresas, porque as pessoas atreladas a este ecossistema entendem que estão se ajudando, e não apenas fornecendo ou fazendo negócio. Entendo que a sustentabilidade se faz cada vez mais importante e interessante para os negócios. Quando pensamos em escala mundial, o Brasil ainda está embrionário, mas já avançou do que era dez, 15 anos atrás. Paramos no sustentável e não enxergamos que podemos ir além, como no caso da ideia da alimentação regenerativa. 

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