Experiência, disposição e sem data para parar

Com muito a contribuir, empresários e colaboradores com mais de 60 anos são exemplos para equipe e recebem boa avaliação

Aos 80 anos, Irene Messias não faz planos de aposentadoria na imobiliária da família: “saio de casa todos os dias para cumprir agenda”


Faz duas décadas que a empresária e corretora de imóveis Irene Messias, hoje com 80 anos, se aposentou, mas deixar o trabalho definitivamente não faz parte dos planos dela. Empresária desde a década de 60, ela e o marido, Juracy, conduziam em Maringá duas empresas: a Saluá Modas e a Autoescola e Despachante Catalina, mas foi um golpe do destino que a fez mudar os rumos: às vésperas de celebrar Bodas de Prata em 1985, Irene perdeu o marido, menos de dois meses depois de ter sepultado uma filha. 

O abalo emocional somado à sobrecarga de trabalho a fez recalcular a rota: ela vendeu as empresas e ingressou no mercado imobiliário em 1989. No começo, trabalhou como funcionária em uma imobiliária até que a empresa fechou e ela precisou trilhar o próprio caminho. Junto, ingressaram os quatro filhos: Eliana, Juliana, Heliete e Marcelo, que construíram uma empresa sólida, 100% familiar, especializada na venda de imóveis, que tem a confiança e o respeito pelo cliente como inegociáveis: a Irene Messias Imóveis. 

O sucesso do recomeço e as conquistas de carreira são motivos de orgulho e combustível para seguir sem planos de parar. Apesar de a família incentivar que Irene efetivamente se aposente, ela é taxativa: “enquanto me sentir bem, vou continuar minha jornada de trabalho. Amo a profissão”, afirma. A rotina, segundo ela, segue intensa de segunda a sexta-feira. “Sou responsável por fazer a documentação dos contratos de compra e venda, por isso, saio de casa todos os dias para cumprir agenda”, diz.

Apesar dos compromissos profissionais, Irene garante que tem aproveitado a vida, principalmente viajando com uma das filhas. “Adoro viajar, principalmente para praias e pousadas, mas também para destinos como Caldas Novas/GO e Gramado/RS”, diz. Para a empresária, tanto sua trajetória quanto se manter ativa nos negócios são mais do que uma forma de prover sustento, são fontes de realização pessoal e profissional. “Com honestidade e dedicação, pude crescer como pessoa ao mesmo tempo em que ajudei muitas pessoas a realizar sonhos. E isso não tem preço”, afirma. 


Perfil valorizado 

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“As pessoas mais experientes têm características que valorizamos como o amor à camisa, a valorização do emprego com carteira assinada e o sentimento de ser útil”, diz Fernando Brust, do Amigão


As motivações para continuar trabalhando após os 60 anos são diversas. Há casos como o de Irene, que não se imagina longe dos afazeres e tem no trabalho uma forma de manter corpo e mente em movimento, e há os que permanecem no mercado ou retornam por questões financeiras, já que nem sempre a aposentadoria é suficiente para cobrir os gastos. 

Na rede de supermercados Amigão, que tem 15 lojas em Maringá e 8,6 mil colaboradores em 65 unidades espalhadas em três estados, colaboradores com mais de 60 anos representam 3,6% do quadro, o que corresponde a 314 trabalhadores. 

O gerente de RH, Fernando Brust, afirma que apesar de não serem numerosos, os 60 mais são valiosos. Segundo ele, os cargos ocupados vão desde liderança até operacionais como cozinheiros, empacotadores e zeladores. “Independente do cargo, as pessoas mais experientes têm características que valorizamos como o amor à camisa, a valorização do emprego com carteira assinada e o sentimento de ser útil, que fazem a diferença no desempenho do colaborador e no convívio”, afirma. 

De acordo com o gerente, diferente das gerações mais novas, principalmente quem está ingressando no mercado, os mais velhos são estáveis e pensam muito antes de trocar de emprego. “Percebemos que alguns jovens que entram na rede para o primeiro emprego ou como aprendizes têm o desejo de crescer rápido e em poucos meses estão insatisfeitos e acabam pedindo demissão. Entre os mais velhos, no entanto, temos baixa rotatividade”, diz. 

Brust afirma que se surgissem mais candidatos com mais de 60 anos, a rede estaria disposta a absorvê-los, porém, a procura não é expressiva. “Outro ponto que nos faz valorizar os trabalhadores experientes é que por serem serenos, promovem uma troca interessante com os mais jovens e nos ajudam a criar um ambiente saudável de respeito à diversidade”, diz. 

Para atraí-los, o Amigão tem feito anúncios direcionados e implantou em algumas cidades como Maringá uma escala para os operadores de caixa que dá mais liberdade de trabalho. É o sistema de 12 por 36 horas, em que o colaborador trabalha dia sim, dia não. “É uma alternativa para operadores de todas as idades, que permite tanto que o colaborador tenha mais tempo de descanso, inclusive mais folgas aos finais de semana, como atividade paralela”, explica.

Esta modalidade, ainda está em teste, visa a retenção de talentos e tem sido bem avaliada por colaboradores e gestores. “É um formato opcional que vai ao encontro do que muitas pessoas, incluindo os mais velhos, têm buscado: qualidade de vida, algo que ficou mais forte após a pandemia”, afirma. 


Atendimento diferenciado

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“A maturidade e a serenidade dos nossos colaboradores aposentados favorecem uma troca rica com os demais membros”, diz Bruna Etchebery, do Sicoob Metropolitano 


No Sicoob Metropolitano em Maringá, a experiência de vida e o vigor de uma nova colaboradora 60 mais, contratada para trabalhar na recepção da cooperativa, foi um divisor de águas naquele posto de trabalho. A afirmação é da gerente de Gestão com Pessoas, Bruna Etchebery. Segundo ela, a chegada da colaboradora, já aposentada, transformou o ambiente de trabalho. “Ela é uma pessoa cheia de vida, de sabedoria e que esbanja alegria, por isso, consideramos que foi uma contratação de sucesso, que tem contribuído para reforçar os valores da cooperativa”, afirma.

O Sicoob Metropolitano tem colaboradores com mais de 60 anos em outras posições. A maioria está em cargos de liderança, como os de gerência e direção, mas há assistentes e colaboradores em outros cargos que estão prestes a se tornar sexagenários. Nos processos seletivos, não há referência à idade dos candidatos. Bruna afirma que a contratação é feita de acordo com o perfil profissional e a compatibilidade com a vaga. No entanto, a cooperativa recebe poucos currículos de pessoas mais experientes.

“A maturidade e a serenidade dos nossos colaboradores aposentados favorecem uma troca rica com os demais membros das equipes. No relacionamento com as gerações Y e Z, por exemplo, eles são uma espécie de conselheiros que fazem um contraponto valioso à ansiedade dos mais jovens”, diz. O contrário também acontece. De acordo com a gerente, os mais jovens sempre se mostram disponíveis para ensinar novidades aos mais velhos, sobretudo em relação aos processos que envolvem o uso da tecnologia.

Outra característica que ela destaca entre os 60 mais é a capacidade de lidar com problemas e imprevistos de forma sábia e serena. “Eles demonstram discernimento e calma diante dos desafios, o que é positivo para a resolução dos problemas do dia a dia. Além disso, são mais assíduos e responsáveis, tornando-se exemplo e inspiração”, afirma.


Incentivos em tramitação

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“A maturidade e a serenidade dos nossos colaboradores aposentados favorecem uma troca rica com os demais membros”, diz Bruna Etchebery, do Sicoob Metropolitano 


Para incentivar a contratação de pessoas com mais de 60 anos, a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado Federal aprovou, no começo de agosto, um projeto de lei que prevê isenções tributárias para empresas que contratarem trabalhadores já aposentados. Segundo o texto, empresas com até dez empregados podem contratar uma pessoa aposentada e obter a isenção do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e da contribuição previdenciária.

“Já empresas que tenham entre 11 e 20 trabalhadores ficam autorizadas a contratar até dois aposentados e, no caso de empresas maiores, a isenção é limitada a 5% do total de funcionários. O projeto estabelece regras e limites claros para garantir que a isenção seja aplicada de forma equilibrada”, explica a advogada Sheyla Borges de Liz, especialista em Direito Previdenciário. Outro incentivo para as empresas é que, na hora da demissão do funcionário aposentado, não será necessário pagar a multa de 40% sobre o saldo do FGTS.

No entanto, segundo Sheyla, o benefício só valeria para empresas que comprovarem aumento do número total de empregados, para que o incentivo à contratação de aposentados não atrapalhe a contratação de profissionais mais jovens. “O projeto exige também que o Sistema Nacional de Emprego (Sine) mantenha e divulgue uma lista de pessoas aposentadas aptas ao retorno ao mercado de trabalho”, explica.

Para a advogada, o projeto de lei é interessante por considerar o envelhecimento da população, o aumento da expectativa de vida e por promover a inclusão social. “Na maioria das regiões do país, os aposentados costumam receber, no máximo, dois salários-mínimos de aposentadoria, o que nem sempre é suficiente para o sustento, então o projeto vem para permitir que este grupo tenha mais qualidade de vida”, diz. O texto agora vai ser discutido e votado no Plenário do Senado e, se for aprovado, seguirá para sanção do Presidente da República.

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