Falta de planejamento e conhecimento fecha empresas

“O próximo ano será promissor”, profetiza Fernando de Moraes, presidente da Federação das Associações Comerciais e Empresariais do Estado do Paraná (Faciap), cargo que assumiu em janeiro.

Estatísticas mostram que cerca de 30% dos MEIs fecham as portas em até cinco anos. Isso é resultado da falta de planejamento, falta de conhecimento do mercado ou inaptidão para o empreendedorismo

Depois de um primeiro semestre desafiador, frente ao cenário pandêmico e econômico, ele vê com otimismo a retomada, ainda tímida, da economia paranaense. 

Nesta caminhada, o empresário destaca o protagonismo do associativismo, em especial das associações comerciais. “Elas são imprescindíveis, uma vez que desempenham um importante papel no fomento ao crescimento econômico e ao desenvolvimento regional”, ressalta Moraes, que é empresário do setor de eletrodomésticos e telefonia e antes de assumir a Faciap presidiu a Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil). 

Além da Faciap, Moraes ocupa o cargo de coordenador do G7 Paraná – grupo formado pelas sete principais entidades do setor produtivo paranaense – e preside o Conselho Deliberativo do Sebrae/PR. E por isso também sabe a dificuldade enfrentada por quem precisa inovar ou quer abrir um negócio próprio. 

Em entrevista à Revista ACIM, o presidente da Faciap cita a inflação e a ausência de reformas, tais como a administrativa e tributária, como os principais entraves ao setor produtivo. Por outro lado, exalta a capacidade de inovação dos empresários: 

Acredita que o associativismo ajudou a salvar negócios durante a pandemia?

Acredito que sim. A partir do momento em que as entidades associativas perceberam as dificuldades dos empresários frente às medidas restritivas contra a covid-19, elas saíram em defesa da classe e da manutenção das empresas. A Faciap, por exemplo, contribuiu com o governo do estado na elaboração de protocolos de segurança, buscou linhas de créditos com juros menores para os empresários, tanto em nível estadual quanto federal. 

E como deve ser o trabalho daqui para frente?

O associativismo continuará como sempre foi: este modelo de colaboração entre empresas com interesses em comum, visando ao desenvolvimento. A força da representação de uma entidade associativa traz diferentes benefícios às empresas. Só o fato de a entidade poder discutir políticas públicas com os governos, algo que uma empresa isoladamente jamais faria, é um grande diferencial. 

Uma pesquisa contratada pela Faciap mostra que, após período de instabilidade econômica, o comércio paranaense inicia uma retomada. Como avalia essa retomada?

Um dado importante da pesquisa é a indicação de que 37% das empresas do Paraná ampliarão seus quadros de funcionários. Isso é uma demonstração de que, se não houver empecilhos de ordem estrutural, a economia ganhará fôlego. Percebemos que os empresários, apesar de estarem cautelosos, demonstram otimismo ao prever a ampliação dos seus negócios, portanto, acredito que essa seja a palavra do momento: otimismo. Além disso, a resiliência dos comerciantes foi o que garantiu uma retomada com mais força neste momento. Muitos empresários apostaram na inovação, adaptaram seus negócios para vendas em e-commerce e delivery, divulgação em redes sociais, entre outros. Tudo isso fez com que o setor caminhasse para essa retomada. O próximo ano será promissor.

E o que considera ser o principal empecilho nesta retomada econômica? 

A inflação sempre foi um grande problema, pois corrói o poder de compra do consumidor, e sem consumo não há venda, sem venda, não há comércio. Mas acredito que o principal problema é a falta de reformas essenciais para o desenvolvimento. Nossos políticos trabalham num compasso diferente. São mais vagarosos quando se trata de destravar o crescimento do Brasil. Há duas reformas importantes, a administrativa e a tributária, paradas no Congresso Nacional e sem uma aprovação aparente. 

Diante de tantas altas, como combustível e energia elétrica, como reduzir os custos de produção que têm desafiado as empresas?

Esta é uma das respostas que os empresários buscam constantemente. Tudo passa por uma boa gestão e adoção de medidas eficazes, que variam de empresa para empresa. É possível buscar a melhor negociação com fornecedores, avaliar o regime tributário, automatizar processos, qualificar colaboradores, avaliar a possibilidade de terceirização, enfim, são várias ações que podem ser adotadas para reduzir custos, porém sem afetar a qualidade do produto ou do serviço.

Qual a expectativa para as vendas e contratações de final de ano? 

Minhas expectativas são as melhores. Com a pandemia sob controle e o avanço da vacinação, os consumidores sentem-se mais à vontade para ir às compras. Segundo estimativa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), as vendas do Natal devem movimentar R$ 34,3 bilhões no comércio varejista, um avanço de 4,3% em relação ao mesmo período do ano passado.

Muitas pessoas perderam o emprego e como alternativa ‘migraram’ para o empreendedorismo, o que levou a um aumento significativo de MEIS e pequenas empresas. Que tipo de suporte é possível dar para esses negócios prosperarem?

Estatísticas mostram que cerca de 30% dos MEIs fecham as portas em até cinco anos. Isso é resultado da falta de planejamento, falta de conhecimento do mercado ou inaptidão para o empreendedorismo. O Sebrae-PR oferece programas de consultorias que capacita os empreendedores para dar os primeiros passos no mercado.

No início da pandemia alguns setores sofreram com a falta de crédito. Como o senhor avalia a disponibilidade de linhas hoje?

Embora o comércio paranaense caminhe para uma retomada com força no próximo ano, boa parte dos empresários ainda tem a necessidade de algum tipo de auxílio. Muitos comerciantes alegam que para viabilizar ações que impulsionem os seus negócios é preciso que o poder público e órgãos competentes tomem providências em prol do setor. Temos dados que mostram isso. Cerca de 43% dos comerciantes paranaenses pedem linhas de crédito facilitadas e 37% reivindicam auxílio com impostos por meio de reduções ou parcelamentos. 

Como tem sido o desempenho das empresas paranaenses em relação à inovação? 

Cerca de 69% dos empresários do Paraná passaram a vender pelo WhatsApp e 50% por e-mail durante a pandemia. Para divulgar os seus produtos, quase 85% dos comerciantes passaram a utilizar o WhatsApp; 78%, o Facebook e 70%, o Instagram. São números impactantes. As empresas decididamente adotaram a inovação como um ponto-chave para a retomada e certamente se manterão firme no digital e nas redes sociais. O setor se mostrou antenado e promete continuar assim.

Os governos federal e estadual têm atuado a contento no que diz respeito a ações de incentivo à geração de empregos e aquecimento da economia?

Percebo que há esforço dos governos, tanto estadual quanto federal, para que o país volte a crescer e, com isso, gere empregos para os mais de 13 milhões de desempregados no Brasil. E, embora tímido, os números começam a aparecer. O saldo do emprego com carteira assinada em setembro ficou positivo em 313 mil no Brasil. No Paraná o saldo foi de mais de 15 mil vagas. Mas a geração de empregos depende de vários fatores, entre eles de uma economia aquecida, e vejo que o governo federal está trabalhando nesse sentido.

Como você avalia o trabalho da ACIM?

A ACIM é considerada uma das melhores associações comerciais do Brasil. Para onde viajo pela Confederação recebo elogios à ACIM por ser uma associação inovadora, por trabalhar fortemente o empreendedorismo e por ter uma conexão forte com empresários da região. A ACIM é orgulho para a nossa Federação.

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