Flexibilidade é palavra de ordem no nomadismo digital

Com atendimentos remotos para clientes de diversos estados e países, profissionais de Maringá ganham autonomia sobre a rotina

Andrés Sebastián faz projetos de identidade visual, tendo empreendedores de fora de Maringá como a maioria de clientes; divulgação é feita por indicações, redes sociais e anúncios pagos

Em nome de uma jornada de trabalho mais livre, o home office, tão disseminado durante a pandemia, vai dando lugar a modelos de trabalho que proporcionam experiências como escolher o horário e o lugar para trabalhar e incluir na agenda diária lazer e compromissos pessoais. 

Para os profissionais que optam por trabalhar assim, computador e internet são os itens básicos. As tarefas podem ser realizadas a partir de um escritório em casa, mas também em parques, em cidades diferentes, durante viagens, em shoppings, entre outros. Os que conseguem unir essa autonomia ao ritmo de trabalho, dividindo-se entre as obrigações profissionais e atenção pessoal, abrindo mão até de residência fixa, são chamados nômades digitais, para ficar em uma das possíveis definições encontradas após buscas no Google. Mas a tendência, aos poucos, vai ganhando espaço na vida de trabalhadores de áreas distintas. 

Quem já experimenta o gosto do nomadismo digital é o designer gráfico, diretor de arte e publicitário Andrés Sebastián, que adotou o modelo de trabalho mais flexível desde 2020. Ele faz projetos de identidade visual e atende, principalmente, empreendedores que estão abrindo um negócio e pequenas empresas que querem repaginar o visual. A maior parte dos serviços é prestada para clientes de fora de Maringá. Os novos atendimentos surgem por meio de indicações, divulgação em redes sociais e anúncios pagos. 

A modalidade tem feito o profissional enxergar mais vantagens que desvantagens. Entre os pontos positivos, ele destaca a flexibilidade de horário; o trabalho a partir de qualquer lugar, “desde que a internet seja boa”, enfatiza; a fuga do trânsito; e a possibilidade de acompanhar de perto o crescimento dos filhos. “Tudo depende do projeto e do cliente. Mas, hoje, por exemplo, consigo ir à academia em um horário diferente da maioria das pessoas. Viajar é mais difícil porque meus filhos frequentam a escola, aí ocorre no período das férias das crianças ou feriado”, conta.

Como desvantagem, Sebastián cita a falta de benefícios garantidos em carteira de trabalho. “Procuro diversificar e ter outras fontes de renda, não depender só de um ‘salário’”, pondera. 

Pacientes em vários continentes

Nutricionista e fisiologista Sabrina Calaresi trabalha com aperfeiçoamento em nutrição integrativa e esportiva. Na profissão há 15 anos, ela atende adultos e idosos em busca de qualidade devida e melhor performance no trabalho e no esporte. 

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Ao entrar virtualmente na casa dos clientes, Sabrina Calaresi conhece a alimentação e os suplementos deles

A profissional tem consultório em Maringá, mas “visita” a casa de pelo menos 30% dos pacientes, que são de fora da cidade. Por chamada de vídeo, ela vai até pessoas da região, de outros estados, como São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Rio Grande do Sul, e de outros países, a exemplo da Índia, Itália, Portugal, Estados Unidos, Canadá e Inglaterra.

Na perspectiva inversa, ou seja, pensando na flexibilidade que proporciona aos pacientes, Sabrina também consegue encontrar mais liberdade. É por meio das “viagens” para o lar dos pacientes que ela conhece culturas e realiza o sonho de disseminar qualidade de vida para além de qualquer fronteira. 

“Além de atender do consultório, de casa ou durante viagens, o atendimento online facilita muito o contato e a individualização”, comenta. Não conhecer cara a cara todos os pacientes ou não recebê-los com um café aconchegante são desvantagens do atendimento virtual, na visão de Sabrina. “Mas as vantagens são maiores, porque, de certa forma, entro na casa do paciente, o que facilita ele me mostrar as alimentações e o que possui de suplementos”, ressalta. 

Na terapia, presença ainda é forte

Há quase 21 anos com clínica em Maringá, a psicóloga Juciane Fregadolli acompanhou as mudanças que possibilitaram a disseminação dos atendimentos virtuais. De acordo com ela, durante anos houve questionamentos e desconfiança sobre a efetividade da terapia por meio da comunicação virtual, mas o avanço das tecnologias e as necessidades globais de conexão fizeram com que o modelo fosse repensado e aceito, podendo ser praticado com autorização do conselho profissional.

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“Se todos os atendimentos serão online em um futuro, não sabemos, mas serão mais frequentes”, diz a psicóloga Juciane Fregadolli, que atende remota e presencialmente

“Tudo foi acelerado com a pandemia. Os profissionais se viram ‘obrigados’ a aderir a esse recurso. Muitos se adaptaram tão bem que abriram mão dos atendimentos presenciais. Eu faço das duas formas. Havia iniciado o atendimento remoto um pouco antes da pandemia, em 2018 e 2019, por conta de distâncias, mas foi com esse desafio que os acessos e recursos foram aprimorados.”

Juciane possui pacientes em outras cidades, estados e em outro país, mas nota que com o passar da crise sanitária e com muitas pessoas trabalhando de forma remota, ir à psicoterapia presencial passou a ser o momento de sair de casa. “Como mantive o espaço físico e sou de uma geração mais ‘tête-à-tête’, vejo que o presencial ainda acaba sendo a forma mais procurada, é um pouco cultural. Mas não há como negar que os atendimentos remotos foram benéficos, porque não têm fronteira e não há horário que impossibilite os atendimentos. O que precisamos é de um espaço e privacidade para a garantia da espontaneidade, seja físico ou virtual”, diz. 

Embora a psicóloga perceba um desejo maior pela terapia presencial, ela explica que a decisão envolve questões individuais e a relação entre terapeuta e paciente. “Se todos os atendimentos serão online em um futuro, não sabemos, mas isso fará parte e será mais frequente. Os melhores benefícios vêm da facilidade de locomoção, horário e recursos físicos. Mas ainda temos a necessidade do contato físico, do estar junto, do tocar. O ser humano é social e tem a necessidade de troca, contato”, observa. 

Bom para a empresa, bom para o trabalhador

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Alex Biasoli trabalha com registro em carteira para uma agência de marketing do interior de SP, mas exerce as funções remotamente em Maringá

Alex Biasoli é funcionário com carteira assinada da Raccoon.Monks, agência de marketing digital localizada em São Carlos/SP que faz parte do grupo Media.Monks, com escritórios em 42 países. Completando um ano de trabalho na organização em abril, o profissional presta serviços integralmente a distância e conta que, inclusive, toda a parte burocrática para a contratação foi feita remotamente. “Só me programo para viajar à empresa quando há evento ou em datas sazonais importantes. Mas o dia a dia de trabalho é só via tela.”

Biasoli diz que nem chegou a receber proposta para se mudar de cidade, porque, de fato, não existe necessidade. De acordo com ele, a Raccoon.Monks tem mais de 1,4 mil colaboradores e todos trabalham a distância. “A empresa é organizada em relação a isso. O processo de cuidar do colaborar funciona muito bem”, elogia.

O profissional, que tem espaço de trabalho montado em casa, conta que procura cumprir horários, mas é a entrega de demandas que fala mais alto no fim das contas. “Como temos flexibilidade, é tranquilo trabalhar enquanto viajo. Mas as férias são bem definidas.”

Nesse modelo, as companhias não precisam arcar com infraestrutura de local de trabalho, mas precisam ter bom suporte. É o que a empresa em que Biasoli trabalha oferece: ferramentas e processos pensados para o emprego remoto. Do outro lado, em meio à atrativa jornada mais livre, ele frisa que a disciplina é indispensável. 

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