Para além do ChatGPT: como a IA revoluciona a produtividade

Da automação de tarefas administrativas à visão computacional em granjas, empresas estão utilizando a inteligência artificial para além dos chatbots

“O ponto central é entender se há uma real necessidade, e não simplesmente seguir uma tendência ou repetir o que um concorrente fez”, diz Ricardo Francisco de Pierre Satin

A inteligência artificial (IA) deixou de ser um recurso reservado a empresas de tecnologia ou grandes corporações. Com a popularização de ferramentas como ChatGPT, Gemini e Copilot, abriu-se uma nova porta para o uso da IA em pequenas e médias empresas. Embora o entusiasmo com a IA generativa tenha ganhado protagonismo nos últimos dois anos, o uso empresarial vai além da interação com um chatbot.

Empresários, especialistas e profissionais de diferentes setores vêm descobrindo como agentes inteligentes, automações e análise de dados podem aumentar a produtividade, transformar modelos de negócio, reduzir custos e liberar equipes para funções humanas e criativas.

“Antes de adotar qualquer solução de IA, o ponto central é entender se há uma real necessidade, e não simplesmente seguir uma tendência ou repetir o que um concorrente fez e publicou em um case de sucesso”, afirma o especialista em tecnologia Ricardo Francisco de Pierre Satin, membro do Núcleo de Inteligência Artificial (NuIA) da Acim. 

A euforia em torno da IA muitas vezes mascara a complexidade por trás da sua adoção. “Não adianta ‘jogar’ um volume grande de dados em uma solução de IA e esperar que ela entregue resultados milagrosos. A qualidade e a organização desses dados são fundamentais para que qualquer modelo funcione com eficácia e gere valor real.”

Segundo ele, é comum empresas tentarem implantar soluções de inteligência artificial sem extrair o máximo das ferramentas que já possuem. “É comum, por exemplo, esperar que os colaboradores usem o Copilot com produtividade, quando ainda enfrentam dificuldades básicas, como gerenciar agendas, acessar arquivos compartilhados ou manter uma comunicação organizada.”

Para Satin, a adoção bem-sucedida da IA exige três pilares: governança, maturidade digital e foco em valor real. “Mais do que correr para implementar IA, é preciso preparar o terreno”, resume.

 

Advocacia

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“Peças processuais que às vezes eu levava uma semana para fazer, hoje redijo em questão de horas”, conta Jean Karlis Zalite

No mundo jurídico, a IA tem promovido uma revolução silenciosa. Advogados que adotam essas ferramentas corretamente relatam ganhos de produtividade e capacidade analítica. É o caso de Jean Karlis Zalite, membro da Comissão de Inteligência Artificial da OAB em Maringá.

“Trabalho em home office e minha produtividade aumentou muito. Peças processuais que às vezes eu levava uma semana para fazer, hoje redijo em questão de horas. Claro que tomo todos os cuidados que o advogado precisa ter, porque há técnicas para trabalhar com isso”, explica.

“O poder judiciário já usa, praticamente todos os juízes e a promotoria também utilizam. Por que o advogado está demorando tanto para utilizar essas ferramentas?”, questiona Zalite.

Ele reforça que a IA não substitui o trabalho jurídico, mas potencializa as capacidades do advogado. “Ferramentas de IA são uma espécie de calculadora para aumentar a nossa potencialidade. Mas tudo isso depende do advogado do outro lado, que precisa saber digitar as teclas da calculadora e interpretar o resultado que ela fornece.”

 

Agroindústria


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Bruno Linter de Castro, do Invictus Group, ajudou a desenvolver um projeto de IA que calcula o número de pintinhos e frangos que sobem em balanças nas granjas


No setor agroindustrial, o uso de inteligência artificial assume contornos práticos. Um dos projetos liderados pelo empresário Bruno Linter Matheus Lima Mazzari de Castro, fundador do Invictus Group, é um exemplo. 

“Em parceria com a Atak Sistemas, implementamos um projeto inovador ao desenvolver uma IA capaz de contar, com precisão, o número de pintinhos e frangos que sobem em balanças instaladas nas granjas”, explica.

A operação não é pequena. “Recebemos mais de 300 imagens por minuto, 24 horas por dia, vindas de 12 granjas. O sistema analisa cada imagem em tempo real e devolve ao cliente a contagem dos animais, permitindo que eles acompanhem o peso médio do lote com base na idade. Isso garante a tomada de decisão precisa sobre nutrição, venda ou intervenção.”

Mais do que automação, Castro enxerga transformação. “A produtividade subiu e os custos desnecessários caíram. A tomada de decisão ficou mais segura e baseada em dados. E o mais importante: a equipe ganhou tempo para ser mais humana, criativa e estratégica.”

 

Para todos os portes

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“A IA tira as desculpas, processos repetitivos, ajuda a otimizar e alavancar os negócios, ganhar tempo, acelerar processos e ter oportunidade de escala”, diz Myleda Caminha Marun

Seja para responder mensagens, agendar reuniões, gerar propostas comerciais ou até analisar documentos, a inteligência artificial faz parte da realidade de muitas empresas. E está presente em tarefas cotidianas, especialmente naquelas que envolvem processos repetitivos e atendimento ao cliente.

Segundo a CEO da OGênio Soluções Digitais, Myleda Caminha Marun, a IA está longe de representar uma ameaça aos empregos. Para ela, a tecnologia veio para somar. “Os pessimistas dizem que em cinco anos a IA vai tomar nossos empregos. E os otimistas têm muito claro de que, com ela, em cinco anos vamos trabalhar menos“, explica.

Para a especialista, é importante ter mais tempo para focar em outras áreas da vida. “A inteligência artificial tira as desculpas, processos repetitivos, ajuda a otimizar e alavancar os negócios, ganhar tempo, acelerar processos e ter oportunidade de escala”.

Na prática, OGênio utiliza IA para automatizar etapas do relacionamento com o cliente, desde o primeiro contato à finalização de uma venda. “É possível conversar com o cliente, dar boas-vindas, atender, tirar dúvidas, vender produtos, apresentar soluções, agendar horários de consultas e de serviços como salão de beleza ou reuniões. A IA também apresenta produtos e catálogos, envia e analisa documentos, além de responder comentários do Instagram, stories e mensagens inbox”.

Para além do atendimento, a IA ganha espaço em áreas como gestão, finanças, análise de dados e marketing. De acordo com o diretor comercial da Totvs Oeste, Alessandro Peralta, a inteligência artificial tem potencial para transformar a produtividade das empresas brasileiras. “A combinação entre essa poderosa tecnologia e a sensibilidade e capacidade humana já é realidade e está transformando negócios em todo o mundo.”

Segundo ele, o primeiro passo é experimentar. “Comece se relacionando com ferramentas que estão disponíveis no mercado sem custo, como nas redes sociais e plataformas de conversas que utilizamos no dia a dia”, explica.

Peralta destaca ainda que a Totvs investe continuamente no desenvolvimento de soluções que integram inteligência artificial a sistemas de gestão empresarial. “Nos últimos cinco anos, investimos R$ 3 bilhões em pesquisa e desenvolvimento para atender as exigências dos mais de 70 mil clientes em 12 segmentos. Nossa tecnologia está presente em lugares que muitos nem imaginam, garantindo que cada empresa prospere e faça a diferença”, diz.

 

Na prática

A Acim foi uma das primeiras associações comerciais do Brasil a criar um núcleo específico de inteligência artificial que faz parte do programa Empreender. Em fase inicial, o NuIA reúne profissionais de diversas áreas, como tecnologia, direito, marketing e negócios.

“Estamos nos preparando para o lançamento do NuIA Labs, nosso primeiro laboratório prático. A proposta é mostrar, de forma direta e aplicada, como extrair valor da IA usando ferramentas que muitas empresas possuem, como as plataformas da Microsoft e Google, além de apresentar cases de empresas de Maringá que utilizam essa inteligência com alto impacto”, afirma Satin.

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